Campo Grande-MS
terça-feira, 1/09/2026

Plano de Riedel reúne regionalização, hospitais, regulação e saúde digital para ampliar consultas, exames e procedimentos especializados em todas as regiões de Mato Grosso do Sul

Para quem vive longe dos maiores centros urbanos, uma consulta com especialista pode começar muito antes do atendimento. Ela começa na organização da viagem, no tempo retirado do trabalho, na necessidade de encontrar transporte e, muitas vezes, na dependência de um acompanhante. Quando o exame, a consulta ou o procedimento depende de um serviço localizado em outra região, a distância passa a fazer parte do tratamento.

É sobre essa geografia desigual do acesso que o governador Eduardo Riedel (Progressistas), candidato à reeleição, estrutura a proposta de consolidar uma saúde regionalizada, integrada e apoiada por recursos digitais. A ideia central é reduzir a influência do CEP sobre o caminho do paciente: fortalecer os serviços próximos de onde as pessoas vivem, conectar os diferentes níveis de atendimento e reservar os hospitais de maior complexidade para os casos que realmente precisam chegar até eles.

No Plano de Governo 2027–2030, Riedel apresenta essa reorganização como parte de uma visão mais ampla: o desenvolvimento só ganha sentido quando melhora a vida das pessoas. “Na saúde, isso significa transformar estrutura, tecnologia e capacidade de gestão em consultas, exames e procedimentos acessíveis nas diferentes regiões do Estado”, explica o governador.

Uma rede organizada por regiões

A chamada Nova Arquitetura da Saúde começou a ser implantada entre 2023 e 2026. O modelo organiza o sistema em camadas que precisam funcionar de maneira articulada. Na base está a atenção primária, porta de entrada que o plano pretende tornar mais eficiente e homogênea nos 79 municípios. Em seguida vêm os cinturões regionais de média complexidade, com oferta de especialidades mais perto da população. Os casos que exigem maior suporte tecnológico seguem para hospitais de alta complexidade, enquanto uma plataforma digital deve apoiar a regulação e integrar o percurso do paciente.

A lógica procura substituir uma rede fragmentada por um fluxo em que cada atendimento aconteça no nível adequado. Para o usuário do SUS, essa organização pode significar algo concreto: resolver perto de casa o que não precisa ser levado à Capital ou a outro polo distante e chegar ao serviço de referência quando o caso exigir cuidado de maior complexidade.

Nos últimos anos Mato Grosso do Sul iniciou uma transformação da saúde pública baseada na regionalização dos serviços, no fortalecimento da média e da alta complexidade e na melhoria dos mecanismos de regulação. A expansão da saúde digital, da telemedicina, da regulação integrada e dos sistemas de vigilância também ampliou, segundo o documento, o acesso da população e a capacidade estadual de responder às demandas assistenciais e sanitárias.

Esse desenho depende da articulação entre Estado e municípios. Serviços locais, atendimentos especializados, hospitais regionais, unidades de alta complexidade e mecanismos de regulação precisam operar como partes de uma mesma rede. Por isso, a proposta de Riedel não se limita a ampliar estruturas: ela busca conectar os pontos do sistema e organizar o caminho percorrido pelo paciente.

Da Telessaúde aos leitos

Um dos resultados destacados no período de 2023 a 2026 foi a expansão da Telessaúde. Consultas especializadas chegaram ao interior sem exigir o deslocamento do paciente. A tecnologia, nesse caso, deixa de ser apenas uma ferramenta administrativa e passa a interferir diretamente na rotina de quem precisa de avaliação especializada, mas vive distante dos centros de referência.

A saúde digital também aparece ligada à regulação. A proposta pretende integrar o trabalho do Estado e dos municípios, compartilhar informações e qualificar a gestão do acesso. Para o próximo mandato, Riedel prevê reunir dados clínicos e administrativos e ampliar o uso de inteligência em saúde, de modo que as decisões sobre a rede sejam apoiadas por informações integradas.

Na alta complexidade, o principal número do balanço está no Hospital Regional de Mato Grosso do Sul. O plano informa que a unidade avança por meio de uma parceria público-privada para ampliar sua capacidade de 362 para 577 leitos. A formulação indica um processo em curso, e não uma expansão já concluída. O aumento previsto representa maior capacidade de atendimento justamente no ponto da rede destinado aos casos que não podem ser resolvidos na atenção primária ou nos hospitais regionais de média complexidade.

Mato Grosso do Sul recebeu nota 100 no Programa Nacional de Imunizações e liderou o ranking nacional. Embora a vacinação pertença a outra frente do sistema, o resultado mostra que a reorganização pretendida não se restringe aos hospitais: ela reúne prevenção, atenção básica, especialidades, alta complexidade, vigilância e tecnologia.

O acesso ainda precisa ganhar escala

A Nova Arquitetura da Saúde ainda não está concluída. O período de 2023 a 2026 deu o start dessa implementação. Para o ciclo seguinte, o verbo predominante é consolidar: consolidar a regionalização, integrar os níveis de atenção, aperfeiçoar a regulação e expandir a saúde digital.

“Essa passagem entre o que já começou e o que ainda precisa avançar é central”, reflete Riedel. A Telessaúde levou especialidades ao interior, mas a proposta é expandir as diferentes modalidades de saúde digital para todas as regiões. A rede passou por reorganização, mas ainda precisa ampliar consultas, exames e procedimentos especializados. A média complexidade ganhou papel regional, mas os hospitais desse nível deverão ser fortalecidos como elementos estruturantes da assistência.

O desafio, portanto, não é apenas criar novos serviços. É garantir que eles se conectem, sejam regulados de forma integrada e respondam ao lugar onde as pessoas vivem. Uma consulta disponível em determinada região somente reduz distâncias quando existe um fluxo capaz de conduzir o paciente até ela e assegurar a continuidade do atendimento.

A proposta procura aproximar três momentos que nem sempre são percebidos como partes de um mesmo cuidado: a entrada pela atenção primária, o atendimento do especialista e, quando necessário, o encaminhamento ao hospital. “Quanto mais integrada estiver essa trajetória, menor tende a ser o peso da distância sobre quem depende da rede pública”, diz o governador.

A próxima etapa da saúde

Entre 2027 e 2030, Riedel propõe consolidar a regionalização e a integração da rede estadual. O plano prevê um modelo de regulação articulado com os municípios, expansão da saúde digital para todas as regiões, ampliação do acesso a consultas, exames e procedimentos especializados e integração de dados e inteligência em saúde.

A proposta também inclui implantar e colocar em funcionamento o Hospital Regional do Pantanal e fortalecer os hospitais de média complexidade.

Outro eixo é a vigilância em saúde. O documento pretende fortalecer as ações epidemiológicas, sanitárias e ambientais, além de aprimorar a resposta estadual a emergências de saúde pública. A regionalização, nesse sentido, não se limita ao atendimento individual. Ela também busca aumentar a capacidade de prevenção, monitoramento e reação diante de riscos que podem atingir municípios e regiões inteiras.

Na visão apresentada por Riedel, a saúde do próximo ciclo deverá combinar presença territorial e inteligência. Presença para manter atendimento e especialidades mais próximos; inteligência para organizar o acesso, compartilhar informações, planejar a rede e direcionar cada paciente ao ponto adequado. O resultado pretendido é um sistema menos dependente de deslocamentos desnecessários e mais capaz de oferecer continuidade entre a unidade básica, o especialista e o hospital.

Para o paciente, a medida dessa mudança não estará apenas no número de sistemas integrados ou nas camadas administrativas da rede. Estará na possibilidade de realizar uma consulta, um exame ou um procedimento sem transformar o cuidado em uma travessia pelo Estado. É nessa redução de distâncias, ainda em construção, que a proposta de Riedel pretende fazer a saúde deixar de depender do CEP e chegar mais perto de casa.

Foto: Saul Schramm