Campo Grande-MS
quinta-feira, 11/06/2026

Por Ana Maria Bernardelli (*)

Hoje, a Academia Sul-Mato-Grossense de Letras vive um dia de luto. Com a partida de Guimarães Rocha, não perdemos apenas um escritor. Perdemos uma inteligência dedicada, uma consciência humanista e um homem que compreendeu, como poucos, o valor transformador da literatura e do magistério.
Há autores que escrevem livros. Há outros que escrevem vidas. Guimarães Rocha pertenceu à rara categoria daqueles que fizeram das palavras uma ferramenta de formação humana. Sua trajetória esteve profundamente ligada ao ensino da literatura, essa extraordinária área do conhecimento que não ensina apenas a ler textos, mas a interpretar o mundo, compreender o outro e ampliar os horizontes da sensibilidade.
Em tempos marcados pela velocidade da informação e pela superficialidade dos julgamentos, sua dedicação aos estudos literários representava um gesto de resistência intelectual. Ele sabia que a literatura não é um adorno da cultura, mas uma de suas estruturas fundamentais. É por meio dela que uma sociedade preserva sua memória, examina suas contradições e imagina futuros possíveis.
Como escritor, deixou sua contribuição ao patrimônio cultural sul-mato-grossense. Como professor, realizou algo ainda mais raro: multiplicou conhecimento, despertou vocações e ajudou a formar gerações de leitores. Afinal, o verdadeiro mestre não é aquele que transmite respostas, mas aquele que ensina a fazer perguntas.
Sua ausência será sentida nos corredores da Academia, nas rodas de conversa, nos debates literários e, sobretudo, na convivência daqueles que tiveram o privilégio de compartilhar sua amizade e seu saber. Contudo, a morte jamais consegue vencer inteiramente os homens dedicados à palavra. Os escritores possuem uma forma singular de permanência: continuam dialogando conosco através das ideias que semearam e das pessoas que ajudaram a formar.
A Academia Sul-Mato-Grossense de Letras se entristece hoje, mas também se curva diante de uma trajetória digna de respeito e admiração. Guimarães Rocha deixa o mundo físico, mas permanece na memória cultural de seu Estado, na história da educação e na gratidão de todos aqueles que compreenderam, através de sua obra e de seu exemplo, que educar e escrever são duas maneiras igualmente nobres de iluminar a condição humana.
Que sua lembrança continue inspirando aqueles que acreditam no poder da literatura, da inteligência e da educação para tornar o mundo mais consciente, mais sensível e mais humano.

(*) da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras