Aos 127 anos, capital reúne histórias de famílias que esperaram décadas pela regularização da casa e de bairros que começam a deixar para trás poeira, lama e falta de infraestrutura
Durante quase quatro décadas, Antônio Pereira Centurion viveu na mesma casa, no Conjunto Parati, em Campo Grande, sem ter em mãos o documento definitivo do imóvel.
Chegou ao bairro em 1986. Ali construiu parte importante de sua vida ao lado da família, com a esposa e um dos filhos, hoje com 46 anos e que necessita de cuidados especiais. Também foi dali que continuou exercendo o ofício ao qual se dedica há 56 anos: o conserto e a manutenção de aparelhos de ar-condicionado, geladeiras e máquinas de lavar.
A casa era o lar da família havia décadas. Faltava, porém, aquilo que transforma a posse em patrimônio juridicamente reconhecido: o título do imóvel.
Quando a regularização finalmente chegou, o significado ultrapassou o papel entregue.
“Vai muito além de um documento. É a segurança de garantir um lar para a minha família. É segurança jurídica. Depois de quarenta anos, o sentimento é de alívio e gratidão”, resume Antônio.
A história dele ajuda a mostrar uma face menos monumental de Campo Grande justamente no ano em que a capital completa 127 anos. Mais do que pelas avenidas, parques e prédios conhecidos, uma cidade também pode ser medida pela relação que seus moradores estabelecem com a própria casa, com a rua onde vivem e com o bairro que atravessam diariamente.
“É nessa escala cotidiana que políticas aparentemente burocráticas, como regularização fundiária, pavimentação e drenagem, deixam de ser apenas números de planilhas públicas”, explica o governador Eduardo Riedel (Progressistas), pré-candidato à reeleição.
Para Antônio, significaram o direito reconhecido sobre a casa onde passou quase 40 anos. Em outros bairros, significam o fim da poeira na estiagem, da lama em períodos de chuva ou de uma espera que atravessou diferentes administrações.
Quando a casa passa a ser patrimônio
Antônio é um entre milhares de moradores alcançados pela regularização fundiária na capital.
O levantamento estadual registra 3.700 títulos já entregues e outros 532 em andamento em Campo Grande, envolvendo bairros como Aero Rancho, Moreninhas, Buriti, José Abrão, Parati, Estrela do Sul e Universitários, entre outras regiões.
É um tipo de política pública cujo impacto nem sempre aparece imediatamente na paisagem urbana. A fachada permanece a mesma. O endereço também. O que muda é a condição jurídica de quem vive ali.
O documento oferece segurança sobre o imóvel, transforma a posse regularizada em patrimônio e encerra, em muitos casos, uma situação de incerteza mantida durante décadas.
A regularização integra uma frente mais ampla de habitação. Em Campo Grande, foram registrados R$ 138,7 milhões de contrapartida do Governo de Mato Grosso do Sul, com 86 moradias entregues e outras 1.039 em andamento, além de unidades beneficiadas por subsídios dos programas Bônus Moradia e Bônus Moradia-Emendas.
Há empreendimentos em diferentes etapas nos residenciais Jardim Antárctica, Jorge Amado, Nova Bahia e Manoel de Barros. No Novo Samambaia, o PAC Periferia Viva prevê reconstrução ou melhorias em 463 unidades habitacionais.
Para os próximos anos, a proposta apresentada por Eduardo Riedel é manter a habitação associada à própria estruturação da cidade. O planejamento prevê continuidade do Bônus Moradia, um novo MS Moradia, novas ações de regularização fundiária e integração entre casa e infraestrutura urbana.
Essa associação é importante porque receber uma moradia ou ter a propriedade regularizada resolve apenas uma parte da equação. A vida continua do lado de fora do portão.
E é aí que começa a história de Eunice de Lima.
A mudança começa a aparecer na rua
Moradora do Jardim Itamaracá desde 2012, Eunice tem uma revenda de gás no bairro. A melhoria da infraestrutura, portanto, interfere ao mesmo tempo em sua vida de moradora e na rotina de quem trabalha e atende clientes na região.
Depois de anos de espera, ela passou a acompanhar o avanço das obras de pavimentação e da rede de esgoto.
“Essa obra é muito importante. Foram muitos anos esperando por esse momento e agora já estamos vendo tudo quase finalizado. É uma felicidade receber também a rede de esgoto e perceber que o nosso bairro está sendo valorizado”, conta.
Para Eunice, a transformação também tem efeito econômico muito próximo da vida diária.
“Vai beneficiar totalmente quem mora e quem trabalha aqui. Para os comerciantes e para os clientes, vai ser ótimo.”
Ela resume a mudança como uma conquista dos moradores e dos empreendedores da região.
O depoimento ajuda a traduzir o significado de termos que, em documentos oficiais, costumam aparecer de maneira abstrata: pavimentação, drenagem, saneamento, qualificação urbana.
Na prática, essas intervenções significam menos poeira no período seco, menos lama quando chove e melhores condições de deslocamento e circulação pelo bairro.
Quase R$ 1 bilhão em infraestrutura
A infraestrutura concentra a maior parcela do conjunto de investimentos estaduais relacionados para Campo Grande.
Foram R$ 973,6 milhões no setor, considerando intervenções da Agesul e da Agehab. Nesse universo, R$ 213,9 milhões correspondem a empreendimentos concluídos e R$ 309,5 milhões a obras em execução, além de uma carteira de novos projetos.
As ações estão distribuídas por diferentes regiões da capital.
Nos últimos anos, intervenções alcançaram eixos como as avenidas Cafezais e Duque de Caxias, o acesso ao Polo Industrial Norte, o complexo do Aero Rancho, as Moreninhas e o fundo de vale do Córrego Imbirussu.
Há também investimentos em estruturas como Feira Central, Casa do Artesão, praças, iluminação pública e equipamentos esportivos.
Ao mesmo tempo, frentes de obras permanecem abertas em regiões como Jardim Noroeste, Jardim Nashville, Portal Caiobá, North Park, Jardim Centenário, Nova Lima, Vila Nasser, Jardim Itamaracá e Novo Samambaia, com pavimentação, drenagem ou qualificação urbana.
A dimensão desses investimentos se torna mais compreensível quando relacionada à característica territorial da capital.
Campo Grande é uma cidade extensa. Nela, a distância entre bairros interfere diretamente no tempo gasto para chegar ao emprego, à escola, aos serviços públicos ou às áreas de lazer. “Uma obra viária, portanto, não reorganiza apenas o mapa: pode alterar a rotina de deslocamento de quem precisa atravessar a cidade diariamente”, pontua o governador.
Obras previstas mantêm foco nos bairros
A agenda para os próximos anos mantém essa lógica de expansão da infraestrutura.
Entre os projetos relacionados estão um novo acesso à região das Moreninhas, estimado em R$ 57,9 milhões, novas etapas de pavimentação nos bairros Itamaracá e Itatiaia, intervenções no Jardim Nashville, Parati e Alto da Boa Vista e um viaduto na Avenida Gury Marques sobre a Avenida Senador Antônio Mendes Canale, estimado em R$ 86 milhões.
O planejamento também prevê pavimentação, recapeamento, drenagem e outras obras estruturantes por meio do MS Ativo, associadas a uma estratégia de cidades mais resilientes.
A quantidade de projetos em execução ou ainda previstos também mostra que os problemas urbanos estão longe de resolvidos. Campo Grande continua acumulando demandas de infraestrutura e habitação produzidas pelo crescimento territorial da cidade e pela necessidade de atender regiões que esperaram anos por melhorias.
É nesse equilíbrio entre o que já foi entregue e o que permanece pendente que o governo procura situar a próxima etapa de investimentos.
“Campo Grande é a casa de quase um terço da população de Mato Grosso do Sul e tem necessidades de uma grande capital. O que procuramos fazer nos últimos anos foi colocar o Estado presente onde a vida acontece: na escola, no hospital, na rua, na moradia, na segurança e nos bairros”, afirma Riedel.
O governador reconhece a existência de uma agenda ainda aberta: “Há muita coisa realizada, outras tantas em andamento, e nosso compromisso é continuar avançando”.
Da porta para dentro e da porta para fora
Campo Grande chega aos 127 anos carregando simultaneamente marcas de uma cidade consolidada e problemas próprios de uma capital que continua se expandindo.
No caso da habitação e da infraestrutura, essa transformação pode ser observada em duas escalas.
Da porta para dentro, está na história de Antônio Centurion, que depois de quase quatro décadas recebeu o documento que assegura juridicamente à família a casa onde construiu sua vida.
Da porta para fora, aparece na experiência de Eunice de Lima, que observa o asfalto e a rede de esgoto avançarem pelo Jardim Itamaracá depois de anos de espera.
São histórias distintas, mas conectadas por uma mesma ideia: o desenvolvimento urbano só se torna concreto quando atravessa a distância entre os grandes investimentos e a vida das pessoas.
Para Antônio, chegou na forma de uma escritura.
Para Eunice, está chegando pela rua.
E, numa cidade que cresce continuamente, é justamente nessa passagem entre a casa, a calçada, o bairro e o restante da capital que os próximos investimentos continuarão sendo colocados à prova.
Foto: Saul Schramm









