Campo Grande-MS
sexta-feira, 7/08/2026

Dois encaminhados pelo Poder Judiciário, Central de Execução de Penas Alternativas (Cepa) para prestação de serviços comunitários, ministram aulas gratuitas de manicure e barbearia no Instituto de Apoio, Capacitação e Instrução de Economia Solidária do Povo (Aciesp), em Campo Grande-MS. O trabalho ajuda mulheres e moradores da comunidade a adquirir novos conhecimentos, gerar renda, conquistar autonomia e planejar o próprio negócio.

A iniciativa conta com a atuação do Poder Judiciário, por meio do juiz Albino Coimbra Neto, responsável pela Central de Execução de Penas Alternativas (Cepa), que encaminhou os dois profissionais para colaborar com as atividades da instituição. “O juiz Albino conversou comigo e disse: ‘Você está pagando o que deve com a sua mão de obra, com o seu trabalho’”, comentou a professora Bruna Oliveira Rezende, de 37 anos.

O trabalho, segundo ela, ganha significado especial nesta sexta-feira, 7 de agosto, quando a Lei Maria da Penha completa 20 anos. A Aciesp atende mulheres que enfrentaram situações de violência doméstica, mas também mantém suas atividades abertas a crianças, idosos e famílias em situação de vulnerabilidade. “Antes de cumprir pena, eu trabalhava como manicure, profissão que exercia desde os 18 anos. Ao chegar à Aciesp, fui acolhida por Ceuracy, responsável pela instituição, e passei a compartilhar meus conhecimentos com uma turma de dez alunas”, comentou Bruna.

Para Bruna, a filha se tornou uma das principais razões para reconstruir sua trajetória. “Quando a gente muda de vida, entende que não pode mais errar. Eu não podia mais errar por ela”, afirma.

Aos 22 anos, barbeiro assume papel de professor

O segundo profissional encaminhado para a Aciesp é Leonardo Camargo, de 22 anos. Barbeiro desde os 16, ele ministra aulas gratuitas às segundas e quartas-feiras para uma turma de aproximadamente 15 pessoas.

Embora tenha sete anos de experiência na profissão, esta é a primeira vez que Leonardo atua como professor. “Ver tanta gente querendo conhecer o nosso trabalho e aprender com a gente é muito gratificante. Eu me sinto orgulhoso”, afirma.

Leonardo começou cedo no ofício. Seu pai mantém um salão no Bairro São Conrado, e a convivência com a profissão contribuiu para o desenvolvimento de suas habilidades.

Entre os alunos está Giovan Sopran, morador do Jardim Aeroporto, que já trabalha em um salão de beleza no centro da cidade. Mesmo com experiência profissional, ele atravessa Campo Grande para aprender novas técnicas com o jovem professor. “Nem tenho palavras para explicar. É um sentimento muito gratificante, um carinho enorme, saber que as pessoas valorizam o nosso trabalho, querem conhecer o nosso serviço e aprender com a gente”, diz Leonardo.

Segundo o professor, muitos alunos demonstram vocação para a profissão e poderão transformar o aprendizado em renda, independência e novas oportunidades. Entre as alunas está Valdirene Ferreira, que trabalha como cuidadora de idosos e encontra nessa aula uma nova possibilidade profissional.

Recomeço com empreendedorismo

Joelma Costa, de 47 anos, foi vítima de violência doméstica e recebeu acompanhamento da instituição. Aos poucos, restabeleceu-se e conheceu seu novo companheiro, Crisaldo Castilho. Hoje, eles moram no Bairro Universitário II e se deslocam por 9 km para participar dos cursos gratuitos de barbeiro e manicure.

O casal já fez, no semestre passado, o curso de corte e costura na Aciesp e já sonha com o próprio negócio. “Eu sempre quis aprender, mas é muito caro e, agora, estamos planejando costurar e vender camisetas”, conta Crisaldo.

Aluna de Bruna, Joelma se sente satisfeita com o aprendizado. “Tudo aqui é especial”, disse.

Recursos destinados pelo Poder Judiciário

Além do encaminhamento dos dois internos, o Poder Judiciário destinou R$ 1,3 milhão à Aciesp em recursos provenientes de penas pecuniárias, popularmente conhecidos como “dinheiro do crime”.

O investimento, segundo a presidente Ceuracy Fátima Santiago Ramos, está sendo aplicado na construção de uma nova sede, com aproximadamente 685 metros quadrados. “A ampliação permitirá dobrar a capacidade de atendimento da instituição, que atualmente acompanha cerca de 390 famílias. A previsão é que a nova estrutura seja concluída em novembro”, disse.

Fotos: Sheyla Leal