domingo, 21/04/2024

Aviso: esta reportagem traz um relato com detalhes que podem ser angustiantes para algumas pessoas.

Delmy sempre acompanhava a filha Beatriz.

Quando a menina foi diagnosticada com lúpus aos 18 anos. Quando essa doença autoimune complicou a primeira gravidez dela, aos 21 anos. Quando o bebê quase morreu em um parto prematuro.

Delmy também estava presente um ano depois, em fevereiro de 2013, quando os médicos descobriram que Beatriz carregava um feto sem cérebro e sem crânio — uma segunda gestação que implicou ainda mais riscos à saúde.

Delmy também estava com Beatriz no dia em que ela recebeu, no hospital, um berço, “presente” enviado por desconhecidos para aplaudir a decisão da Câmara Constitucional de El Salvador de negar-lhe o aborto, apesar de a interrupção dessa segunda gravidez — que era inviável — ser recomendada por uma comissão médica de 15 especialistas como uma saída para salvar a vida da jovem salvadorenha, que tinha 22 anos à época.

Dez anos depois dessa decisão, Delmy participou da primeira audiência pública realizada pela Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), nos dias 22 e 23 de março em San José, na Costa Rica, para determinar se o Estado de El Salvador violou os direitos de Beatriz por submetê-la a tratamento cruel e degradante ao proibi-la de fazer um aborto.

Beatriz tornou-se um símbolo em El Salvador, um dos lugares com as leis antiaborto mais restritivas do mundo.

O país localizado na América Central condena o procedimento em todas as circunstâncias, com penas que podem implicar entre 30 e 50 anos de prisão se a mulher for acusada de homicídio qualificado.

Esse processo é o primeiro caso de negação de aborto a ser julgado na CIDH. A decisão abrirá um precedente sobre o direito ao aborto para os demais países da região que assinam a Convenção Americana de Direitos Humanos.

No depoimento que você confere a seguir, Delmy relata, em primeira pessoa, a experiência de sua família na última década, incluindo a morte de Beatriz devido a um acidente que ocorreu anos depois da gravidez.

‘Uma camiseta pequenina’

Beatriz sofria de lúpus eritematoso sistêmico, doença em que o sistema imunológico ataca os tecidos saudáveis ​​do corpo. Essa condição colocou em risco a vida dela e do bebê durante a primeira gestação. O filho nasceu prematuro e pesava menos de dois quilos.

“O mais difícil da primeira gravidez de Beatriz foi a pré-eclâmpsia.

Antes de entrar em trabalho de parto, eles fizeram transfusão de sangue nela. Fui vê-la e encontrei Beatriz tremendo de frio. A internação foi necessária, porque ela chegou com um quadro de cansaço e estava respirando muito forte.

O bebê nasceu prematuro, estava muito abaixo do peso. Ainda tenho uma cuturina [camiseta de bebê] de quando ele nasceu no hospital. A cuturina é assim [Delmy forma um L com a mão, usando o dedo indicador e o polegar], uma camiseta pequenina.

Quando me deram o bebê no hospital, ele cabia na minha mão. Mas eu não estava chorando.

A Beatriz me disse que, quando o viu, teve pena de o terem ligado a um monte de tubinhos e fios.

Pensávamos que ele não ia sobreviver.

Por isso, ela não usou método contraceptivo depois da primeira gravidez. Beatriz achava que o filho não ia viver, e ela queria ter um filho.

Beatriz nunca conseguiu amamentar. Acho que porque ela estava tomando um remédio forte [para tratar o lúpus]. A criança foi criada apenas com fórmula infantil.”

81 dias hospitalizada

Um ano e meio após o nascimento do primeiro filho, Beatriz soube que estava grávida pela segunda vez. Ela tinha medo de passar pelas mesmas complicações que o lúpus causou na primeira ocasião.

Os médicos alertaram que o bebê em desenvolvimento, uma menina, sofria de anencefalia: uma malformação congênita que impediria o crescimento do crânio e do cérebro, órgão que controla todas as funções do corpo.

Dado que o bebê não sobreviveria, Beatriz solicitou ao Estado salvadorenho que permitisse a realização de um aborto. O pedido foi negado.

“Um dia, Beatriz acordou com feridas no rosto, como se fosse uma catapora. Apareceram umas bolsas na pele. Quando elas estouraram, saiu pus e sangue. Aí o tempo foi passando e isso se espalhou pelo corpo todo. As mãos e os pés dela estavam cheios de feridas.

Beatriz não conseguia andar. Coloquei um tecido que ela segurava com a ponta dos dedos para cobrir o corpo. Era uma dor insuportável.

Beatriz não morava comigo, ela estava com o companheiro. Porém, quando surgiu esse problema, ela me procurou para levá-la nas consultas.

Quando fizeram exames para ver o que havia de errado, descobriram que Beatriz estava grávida.

Para mim, foi um baque muito duro porque eu sabia que, se ela engravidasse novamente, teria que passar por um processo mais difícil do que da primeira vez, pois o estado de saúde era mais crítico naquele momento.

Quando nos deram a notícia, nós a levamos ao Hospital Rosales. Eu tinha que ir todos os dias da cidade de Usulután até a capital, San Salvador. Eram duas horas de ônibus. Tinha que sair às 6h da manhã para estar lá às 8h. Houve até momentos em que eles não me deixaram entrar… Tinha que esperar até a hora da visita, às 11h ou 12h.

Eu tentava entrar mais cedo porque a Beatriz não conseguia comer até que eu chegasse ao hospital. As mãozinhas dela estavam enfaixadas, por causa das feridas.

Ela também não podia ir ao banheiro. Ela tinha que esperar, e as enfermeiras sempre estavam ocupadas. Um dia, Beatriz me disse: ‘Tenho vergonha de pedir.’

E ela esperava até a hora em que eu chegava

Ela também tinha dificuldade para comer. Primeiro, porque a garganta doía. Segundo, porque a comida do hospital era péssima.”

“E era assim todos os dias.

Eu trabalhava em uma queijaria, e minhas companheiras cobriam meu horário para que eu pudesse estar nesse processo. Beatriz e eu estávamos juntas no horário de visitas. Quando diziam: ‘Bem, todos os visitantes devem ir embora’, eu me escondia e depois voltava.

Durante o tempo em que esteve internada no Hospital Rosales, Beatriz chorou de dor.

Quando a transferiram para a maternidade, na hora em que acabou todo o processo [a cesariana da segunda gravidez], ela me disse: ‘Quando é que vão fazer o que dizem? Eu não quero estar aqui’.

Ela ficou internada durante 81 dias.

Eles a mantiveram em um quarto na frente da enfermaria, em um espaço muito pequeno, que mal cabia a cama dela. Ela se sentia confinada, e não podia ver o primeiro filho.

Como o companheiro de Beatriz se dedicava a cuidar da criança, ele raramente conseguia estar com ela. Depois que ela saiu do hospital, eles voltaram a ficar juntos.

Beatriz tinha um telefone e teve acesso às coisas que eram ditas sobre ela. Eles a discriminaram. Muitos diziam: ‘Por que ela abriu as pernas se estava doente?’. Coisas nojentas desse tipo.

Um dia, cheguei na maternidade para visitá-la e ela me disse: ‘Olha o que me trouxeram.’

Era um cesto [berço] com uma manta. Eu perguntei a ela: ‘O que essas pessoas querem?’.

Os remetentes eram aqueles que se opõem [ao aborto], os que dizem sim à vida. Eles não sabem o estrago que causaram em Beatriz.

À noite, ela me ligava e repetia: ‘Estou desesperada. Quero que acabem com isso agora.’

Beatriz entrou em crise. Ela disse que sentia como se estivesse morrendo.”

‘Menina do céu’

Embora a lei salvadorenha proibisse a interrupção da gravidez em qualquer circunstância, Beatriz pediu permissão para fazer um aborto durante a 12ª semana de gravidez.

O tribunal salvadorenho finalmente autorizou a cesariana na semana 26, quando a saúde de Beatriz estava mais comprometida, mas ainda dentro de um marco legal que considerava o procedimento um parto prematuro em vez de um aborto. A menina nasceu de cesariana e morreu 5 horas depois.

“Para mim, foi muito difícil que o feto não pudesse terminar a gravidez.

Eu estava com Beatriz no hospital quando vieram avisar que iam fazer uma cesariana. Eles a forçaram a ter um bebê sem crânio, que morreu cinco horas após o nascimento.

Fiquei lá esperando. O procedimento durou duas ou três horas.

Na audiência [da CIDH], disseram que Beatriz tinha visto o bebê. Mas quem a viu fui eu.

Quando acabaram, o médico me disse: ‘Você quer ir ver? Mas não tire foto, só olhe’.

Quando cheguei ao local, olhei para ver se ela conseguia mover os olhinhos. Mas não era possível.

Eu só a vi por alguns segundos.”

O caso de Beatriz se tornou um símbolo da luta pelo direito ao aborto em El Salvador© Getty Images

“Mais tarde, contei a uma enfermeira o que tinha visto, e ela me disse que ‘essas crianças nascem assim, incapazes de fazer qualquer coisa porque não têm cérebro’.

Ela tinha tudo isso [Delmy aponta para o próprio rosto], mas aqui [ela toca a nuca] ela não tinha nada.

Beatriz quis dar um nome a ela e começou a pesquisar na internet até se deparar com Leilani, que [em havaiano] significa ‘menina do céu’.

Escolhemos então o nome Leilani Beatriz.

Depois disso, Beatriz se isolou. Ela ficou mais irritada e quase não sorria.

Estávamos procurando uma maneira de fazê-la se sentir bem. Os irmãos cantavam para ela. E Beatriz respondia: ‘Calem-se. Não quero ouvir barulho.’

Tudo aquilo formou um vazio nela. Ao mesmo tempo, foi também como uma pausa, porque ela conseguiu estar com o outro filho, por quem ela queria viver e de quem ela queria cuidar.”

‘Vocês não sabem’

Beatriz morreu em um acidente de trânsito em outubro de 2017, quatro anos após ter a segunda filha e entrar com uma ação contra o Estado salvadorenho na CIDH.

Desde o falecimento da filha, Delmy cuida do neto, que hoje tem 11 anos.

“Com tudo isso que aconteceu, fiquei doente. Comecei a ter hipertensão, até quase explodir. Eu não queria me alimentar e meu companheiro me dizia: ‘Coma, ou você vai ficar mais doente’.

Meus colegas de trabalho me apoiaram. Fui assimilando tudo com a ajuda de outras pessoas.

Outros fizeram comentários, como vizinhos ou pessoas que gostam de tirar conclusões precipitadas. Ainda hoje alguns me questionam: ‘Você é a favor do aborto?’

E ficam lá, sem dizer mais nada.

O mais difícil para mim foi que eles não deram respostas a Beatriz, tendo negado o direito que ela exigia.

Por causa de todo esse processo, aprendi que você tem que lutar para que seu caso não se repita.

Meu neto tinha 5 anos quando Beatriz morreu. Quando ela estava no caixão, ele a tocava e dizia: ‘Bella, levante-se’. O menino pensava que ela estava dormindo.

Quando vamos ao cemitério, ele acena para o túmulo com a mão. Isso é muito difícil para nós.

Hoje em dia ele me chama de mãe, chama uma tia de mãe, chama a companheira que o pai tem de mãe. Talvez sinta falta daquele carinho da própria mãe dele.

Meu neto já tem 11 anos, mas ainda não fala muito bem, não pronuncia as palavras corretamente. Ele está cursando a quarta série.

Ele tem momentos carinhosos, mas às vezes fica com raiva.

Quero que meu neto cresça como um homem saudável e forte.

Quando for adulto, espero poder explicar para ele todo o processo pelo qual Beatriz passou. E também penso na minha neta. Deus sabe como tudo acontece. Se Ele decidiu que ela não poderia nascer, Leilani deve ser um anjo que agora está com Beatriz.”

BBC NEWS