quinta-feira, 13/06/2024

Não reconhecendo o resultado da eleição que favorecia ao coronel Generoso Ponce e ao seu candidato João Felix, o usineiro Antônio Paes de Barros, Totó Paes, aliado aos Murtinhos, dissidentes de Ponce, com exército de mercenários, invade Cuiabá e decide impedir à força o reconhecimento do resultado eleitoral pela Assembleia Legislativa, que é cercada e o seu presidente, o próprio Generoso Ponce, recebe, redigido com irônica sutileza, o seguinte ultimato:
 
Tenho a honra de comunicar-vos que se acha a Divisão Patriótica – Campos Salles – organizada com o fim especial de garantir a Assembleia Legislativa do Estado no julgamento da eleição procedida a 1º de março último nos cargos de presidente e vice-presidente do Estado no futuro quatriênio a começar de 15 de agosto. A notícia de tratar-se do assunto do corpo de polícia militar, do armamento de paisanos em grande número, vindo do interior, do entrincheiramento das ruas desta cidade principalmente das que rodeariam o edifício onde funciona a Assembléia, de todo este aparato bélico de que é testemunha a população inteira desta capital, tomada de natural terror, inspirou a idéia de reunir a divisão patriótica sob o meu comando afim de assegurar no meio desta atmosfera de ameaças à independência dos representantes do povo sobre cujo ânimo talvez se tenha pretendido atuar por tal forma para alcançar a aprovação de uma série de atas de eleições simuladas em prejuízo da justiça e da verdade do regime republicano.


Contando com o apoio patriótico que lhe é oferecido, poderá a Assembleia no exercício de uma das suas mais elevadas atribuições, obrar mais livremente, anulando ou aprovando como entender em sua sabedoria, as eleições que vão ser apuradas sem que os seus dignos membros tenham a recear qualquer consequência de votos que derem no desempenho da delicada missão a eles conferidas por lei.

 
Na persuasão de que prestamos assim um serviço às instituições que nos regem, assegurando o seu funcionamento regular na situação anormal que atravessa o Estado, cabe-me solicitar que transmitais à Assembleia o conhecimento das verdadeiras intenções que animam a divisão patriótica e o seu respeito e acatamento às deliberações que forem legitimamente decretadas por ela. Saúde e fraternidade. Antônio Paes de Barros.

Ponce responde ultimato de Totó Paes

Cercada a Assembleia Legislativa em Cuiabá por forças mercenárias, a serviço do do coronel Antonio Paes de Barros, o Totó Paes, este encaminha em 9 de abril, ofício ao presidente da casa e seu principal adversário, Generoso Ponce, dando um sutil ultimato no sentido de anular a eleição para presidente do Estado, cujos votos estavam sendo conferidos pelos deputados. No dia seguinte, sem nenhum requinte, Ponce responde ao adversário:

Assembleia Legislativa de Mato Grosso – em Cuiabá, 10 de abril de 1889. Sr. Cel. Antonio Paes de Barros. Com a data de ontem, acaba de ser-me entregue, agora, 9 horas da manhã, um ofício vosso, no qual me comunicais que nesta Capital já se acha uma divisão denominada de Campo Sales – organizada segundo dizeis, com o fim especial de garantir esta Assembleia, no julgamento da eleição procedida a 1° de março último para os cargos de Presidente e vice-presidentes do Estado, no futuro quadriênio a começar a 15 de agosto, oferecendo à mesma Assembleia o apoio da dita força para que possa obrar mais livremente, anulando ou aprovando, como entender em sua sabedoria, as eleições que vão ser apuradas. Respondo ao vosso citado ofício e faço unicamente em homenagem à vossa pessoa, tenho a dizer-vos que se esta Assembleia se sentisse coata para o livre exercício de suas atribuições, que lhe foram conferidas pela Constituição do Estado, ela saberia cumprir o seu dever, pedindo aos poderes competentes do Estado e da República, as indispensáveis garantias para o desempenho de sua soberania, não podendo de modo algum aceitar o apoio de uma força ilegalmente constituída, que atenta a ordem pública e sob o comando de um interessado no julgamento da eleição a que aludis no vosso citado ofício. Saúde e fraternidade. –  Generoso Paes Leme de Souza Ponce.
O episódio teria desfecho com a anulação da eleição e a realização de um novo pleito em 15 de agosto, com a eleição dos candidatos apoiados pelos novos aliados, Totó Paes e Murtinho e a marginalização de Generoso Ponce e seu partido, que voltariam ao poder em 1906.


FONTE: Rubens de Mendonça, História do Poder Legislativo de Mato Grosso, Assembleia Legislativa, Cuiabá, 1967. Páginas 68 e 69 e 71
FOTO: prédio da Assembleia Legislativa de Mato Grosso em Cuiabá, na atual rua Pedro Celestino, esquina com a rua Campo Grande. Foto extraída do Album Grphico de Matto-Grosso, 1914.