quarta-feira, 21/02/2024

HISTORIA! Aconteceu em 5 de julho de 1867 – Varíola de Corumbá chega a Cuiabá e dizima população da capital

05/07/23

Levada pelos retirantes de Corumbá, aporta em Cuiabá avassaladora epidemia de varíola, conforme relata Virgílio Correa Filho:

Se, considerando apenas o desfecho militar, a expedição a Corumbá assinalou-se pelo aniquilamento da guarnição inimiga e derrota de maior contingente no combate de Alegre, o reverso lhe derivou da epidemia, que grassava na localidade e malogrou a vitória como se fora vingativa arma de ação retardada.

Quando a tropa iniciou a retirada, depois de alcançar o objetivo imediato, que lhe inspirava a investida, já se havia contaminado irremediavelmente.

Ainda se achava em Corumbá o primeiro Batalhão Provisório, quando se registraram casos fatais. Durante a morosa viagem, a convivência de bordo multiplicaria os contágios. Em Cuiabá, o soldado Joaquim de Assunção Batista iniciou a 5 de julho, a série de variliosos, cujo número montou, nesse dia, a seis. Em 17 dias contavam-se por 72 os mortos pela pestilência, que se limitava ainda ao acampamento. A 23 porém sucumbiu Januário, o primeiro bixiguento entre a população civil, logo seguido por dezenas de vítimas, 16 no dia 26 de julho, 19 no dia 27 e mantendo-se em cifras elevadas, com o mínimo de 11 no dia 29, até o fim do mês, num global de 183 para o período de 5 a 31 de julho. (…) Somente em outubro começou a declinar a mortandade, que exigiu a abertura de cemitério especial, de Nossa Senhora do Carmo, ou Cai-Cai. Não se apurou ao certo o número total, pois que o próprio registro oficial se embaralhou, após o falecimento a 7 de setembro, do cônego Jacinto, Vigário Geral, que zelosamente cuidava dos assentamentos, até que a doença o prostasse. Pelos registros pereceram 183 pessoas em julho e 484 em agosto. No mês seguinte as falhas não permitem estimativa satisfatória, embora figurem 293. Houve ocasião porém, a 7, de 52 enterramentos.¹

Testemunho ocular da tragédia, cuja família fora vitimada, Joaquim Ferreira Moutinho, descreve a epidemia com toda emoção e revolta do calor da hora:

A cidade tomou um aspecto indiscriptivel : de todas as casas via-se sahirem cadaveres, que erão condusidos em rêdes para os campos, e de muitas fecharão-se as portas, porque os seus habitantes haviam perecido, desde o chefe da familia até o ultimo escravo! Fundou-se um lazaretto no lugar denominado Coxipó, para onde eram condusidas as praças do exercito atacadas de bexigas; mas, faltando commodidade ultimamente para novos enfermos, deu-se alta a grande numero d’elles ainda no periodo da dissecação. Foi um mal sobre tantos outros. 
Em tres dias (estavamos então a 15 de Agosto) a peste tocou o extremo: cahirão, victimas d’ella, familias inteiras-velhos, crianças, moços, escravos… A cidade era toda presa do horrivel flagello ! Em nossa casa, em dous dias, tivemos vinte doentes, contando nossa familia vinte e duas pessoas! Mesmo assim não fomos dos mais infelizes; eramos duas a tratar das outras, embora sem o auxilio dos medicos que desampararão os enfermos para que podessem velar sobre suas familias. Eramos forçados a fazer toda a sorte de serviços, e tanto o rico como o pobre gemião sob o peso da extrema miseria; porque tanto não havia assucar por preço algum, nem vélas, nem galinhas e nem ao menos a lenha indispensavel para coser-se os medicamento e acudir-se ás necessidades urgentes como o caldo para os doentes. Mesmo a agua faltou, pois não se encontrava quem fosse buscal-a eis fontes. 
Não havião mais lençóes, toalhas, pano branco qualquer, e só cobertor que rasgava-se em tiras podia-se cobrir os leito. No meio da desgraça geral tivemos tambem a nossa vez de pagar um tributo ao flagello, e esse tributo foi bem pesado e cruel! Esposa e filhos ao mesmo tempo gemendo num leito de dores, sem que podessemos levar-lhes um lenitivo qualquer, porque nem a medicina ministrava mais os seus soccorros-foi o quando que offerecemos nossa casa por espaço de muitos dias, nos quaes, conscio da nossa impotencia para arredar o mal, só tínhamos conforto nas lagrimas, embora fossem ellas sangue vertido do coração! 
A vitalidade do corpo como que se enfraquece com o acabrunhamento do espirito, e então o homem se reveste da coragem que nasce do proprio desespero, e só na dôr encontra lenitivo á propria dôr ! Em poucos dias perdemos um cunhado, duas escravas, duas aggregadas, e finalmente um filho, na tenra idade de quatro mezes, e, o que é ainda mais doloroso, talvez fosse a fome a causa principal da sua morte! Aqeueles que no correr da vida não passarão ainda por trance semelhante, não podem avaliar a profundeza da ferida que nos deixa n’alma o passamento de um ente tão caro! Continuaremos a nossa narração. 
O anjo da morte continuava-incançavel-a sua obra de destruição. A policia mandou arrombar as portas de muitas casas para proceder-se ao enterramento de familias inteiras que erão encontradas já em estado de putrefacção. O numero dos mortos, crescendo extraordinariamente, montou a mais de duzentos por dia. A atmosphera da cidade estava viciada de um fetido nauseabundo que a viração do campo não conseguia dissipar, porque vinha tambem carregada de miasmas que exhalavão de centenares de corpos que lá se achavão espalhados. 
De 1.505 casas que existem na capital, não sóbe a 40 o numero das que não tiverão doentes. O chefe de policia já n’este tempo havia dado ordens para que sepultassem os corpos no celebre carrascal do Caecae, onde se reprodusião as scenas de horror começadas na cidade. Não havendo pessoal sufficiente para abrir vallas que podessem conter centenares de cadaveres, sobrepunhão uns aos outros e lançavão-lhes fogo que os não queimava, mas assava, para depois servirem de pasto aos corvos, aos porcos e aos cães, que cevavão-se n’esse estranho banquete de carne humana. 
As ruas estavão desertas, e n’ellas só se encontrava defuntos e cães que arrastavão fragmentos de corpos, ou membros inteiros arrancados violentamente. Causou tão grande horror á população esse espectaculo repulsivo, que preferia ela d’ahi em diante enterrar dentro de casa ou nos quin- taes os restos das pessoas que lhe erão caras. Não ha pena que possa descrever tão siugular quão horrenda situação! 
Creanças abandonadas-vagavão pelas ruas pedindo misericordia, porque seus paes, irmãos ou parentes havião morrido, e não lhes restava quem lhes mitigasse a fome e os padecimentos produsidos pela enfermidade que soffrião. Moças-mendigavão ao desamparo um abrigo á sua honra. Velhos-esmolavão quem lhes enterrasse os filhos, para que os mesmos não virassem pasto aos vermes dentro de suas proprias casas. Quão grande foi o crime daquelle povo! 
Em 34 a carnificina dos portuguezes, e precisamente 34 annos depois a peste ceifadora e cruel!… Estranha coincidencia ! Seria um castigo que o Senhor enviou para reparação dos crimes praticados contra irmãos? Talvez. O que é certo é que de uma população de 12.000 almas mais de metade succumbio, e parte levantou-se disforme. Cremos mesmo que succumbiria toda ella senão se achasse na capital o 2º batalhão de artilharia a pé, composto de soldados vaccinados, filhos de diferentes provincias onde a variola é conhecida, assim como o seu tratamento pratico. 
Foi este punhado de homens que praticaram os unicos serviços que por ali houverão dignos de encomios. E pelo que conta-se a respeito desses factos (infelizmente exactos) que fazem desmerecer muito o brilho d’esses serviços; que, apezar das tropelias e actos da mais requintada perversidade praticados por alguns, bradão bem alto os soccorros que prestarão, embora o interesse imediato que exigião de prompto fosse o motor que os compelisse á “caridade”. Sem o auxilio desses homens, que não querião tratar de enfermos visitados por medicos, muitos morrerião ao abandono e na miseria. 
Outro serviço por elles prestado foi a conducção dos cadaveres para o Caecae. Que importa que, movidos pela mais insoffrega ambição, atirassem os corpos ao primeiro mato que encontravão, afim de poderem com brevidade receber outros, e cobrassem por esse trabalho 30, 40, 50, até 100$000, conforme a condição de cada um? O povo cuyabano, esquecendo a falta d’esses homens, deve ser-lhe extremamente grato, porque sem eles- os corpos conservados no interior da cidade infeccionarião ainda mais a atmosphera, e maior seria o numero das victimas. 
Os empregados publicos, atacados em geral pela peste, deixarão de ir ás repartições, e só o inspector da thesouraria ali comparecia por ser vaccinado. o governo creou um lazaretto no lugar denominado- May Bonifacia,- e depois o removeu para o centro da cidade, sem que possamos saber qual o motivo do seu proceder. Perece essa medida uma verdadeira aberração dos dictames da rasão. O comandando das armas, nos dia maís luctuosos, instalou peça de artilharia em diversas ruas da cidade, e dar fogo de manhã e de tarde. Ignoramos lambem o fim d’essa medida. Pretenderia afugentar a epidemia com tiros de canhão? 
Esse pretendido recurso hygienico foi a causa de tornar-se mais grave o estado  de muitos enfermos; pois ao primeiro estàmpido levantavão-se em delírio e procuravão fugir, julgàndo que erão os paraguayos que se achavão na cidade. 
Todas as casas sendo fócos de podridões, o cheiro da polvora era impotente para desinfectal-as. O mal estava feito e era já tarde para atalhal-o, o que ao principio seria facil se houvessem as autoridades sido mais previdentes. 
Para prova temos mesmo na provincia um exemplo. O então commandante de Villa Maria, tenente coronel Luiz Benedicto Pereira Leite, logo que soube do desenvolvimento da peste, colocou cordões sanitarios em todos os pontos da Villa, prohibindo expressamente, o ingresso de qualquer pessoa; e no momento em que sabia existir um bexiguento dentro ela mesma villa, mandava sem demora retiral-o para algum lugar mais ou menos remoto, onde recebia o competente tratamento. Foi assim que Villa Maria e a cidade de Matto-Grosso nada soffrerão, quando a capital, o Diamantino, Poconé e outras povoações forão completamente devastadas. 
A policia só teve em vista livrar da peste as futuras gerações, prohibindo o enterramento dos mortos no cemiterio, e ordenando que só fosse feito no campo e no Caecae, monumento eterno de sua incapacidade para o lugar que exercia. Hoje está esse lugar murado e ornado de uma capellillha sob a invocação de Nossa Senhora do Carmo; mas rarissimas são as pessoas que sabem em que parte desse cemiterio descanção os restos mortaes de suas familias. Ahi procuramos a sepultura de nosso innocente filho, e não foi-nos possivel encontral-a. Seria elle enterrado? Pesa-nos até hoje não ter satisfeito o desejo que tivemos ele ir pessoalmente sepultal-o; e, a não ser pedir a um um amigo, teriamos praticado este doloroso acto. Encerramol-o, porém, em um caixão de taboas grossas; que pregamos, depois de cobrir o cadaver’ com cal, e assim o entregamos ao guarda do cemiterio. Consta-nos que o sr. dr. chefe de policia lhe recomendára o nosso anjinho, e mandára colocar uma Cruz sobre a sepultura. De coração agradecemos a esse senhor, que como nós comprehende a dor que causa a perda de um filho, embora duvidemos que suas ordens fossem cumpridas. 
Voltemos ao Caecae, scenario de horrores que desejamos deixar; mas o dever que nos impozemos de narrar os factos taes quaes como se derão nos obriga ainda a algumas palavras. Os corpos, como dissemos, erão condusidos em rêdes, as quaes, unidas ás roupas que os envolvião, servião de combustivel ás fogueiras levantadas no carrascal, ou erão levados em caixões apenas chanfrados e forrados de panninho preto, orlados de cadarço branco estreito, que erão vendidos, ou antes emprestados, pelo preço de 70 a 80$OOO, e até 100$OOO se erão ornados de espiguilha amarela. Dissemos- emprestadas-porque, depois de lançado o defunto na valla ou na pyra, servião novamente para conducção de outros. O fornecedor d’esses caixões fez-se rico com a especulação, e seguia para a Europa, onde foi gosar a fortuna tão funebremente ganha. 
Os restos mortaes do velho como da moça, do innocente ou da virgem, ao chegarem ao lugar onde tinhão de ser devorados pelas chammas ou pelos vermes-recebião ainda os mais grosseiros e brutaes improperios das boccas da canalha infernal encarregada de dar-lhes um destino, o que só fazião dopois de insultaI-os da maneira a mais atroz! As immediaçães d’esse lugar, onde tantas cruezas se praticavão, sentia-se um fetido tão repellente, que diflicultosamente se podia aproximar; por isso as pessoas que ali se achavão erão obrigadas a fazer uso continuo da cachaça, o que contribuia muito para a pratica d’esses actos impiedosos de que vimos de falar. 
Se realisou-se a terrivel prophecia do sr. dr. Generoso Alves Ribeiro, que o digão o Caecae, e o tumulo que vamos regar com as nossas lagrimas. Nem ao menos esta falhou quanto á morte do sr. dr. Neves, que, não podendo suportar a dor da perda de quasi toda a sua familia, succumhio com o seu pezar. 
Altos juizos de Deus!
Alveja á entrada do cemiterio um tumulo sobre o qual se ergue uma Cruz que ahi mandamos collocar. N’elle jazem, encerrados em uma carneira de cedro, os restos mortaes de uma senhora, esposa de um nosso amigo. Mãe extremosa, esposa exemplar e virtuosa, nunca em seu coração se aninhou um sentimento que não fosse a expressão da bondade. Seus labios tinhão sempre uma palavra de animação e consolo aos infelizes que a ella recorrião, e por isso foi a sua morte por todos sentida e chorada. 

Foi um anjo, não devia viver na terra, vôou ao seio do infinito!

FONTE: ¹Virgílio Correa Filho, História de Mato Grosso, Fundação Júlio Campos, Varzea Grande, 1994, página 550. ²Joaquim ferreira Moutinho, Notícia sobre a província de Mato Grosso, Typographia de Henrique Schroeder, S. Paulo, 1869, página 100.

FOTO: A cidade de Cuiabá, extraída do livro de Joaquim Ferreira Moutinho.