Campo Grande-MS
segunda-feira, 12/10/2026

Uma Israel branca e fortemente armada. Uma muralha contra o Islã, os movimentos LGBTQIA+ e o avanço de culturas que contrariem o fundamentalismo religioso. Ultra capitalista, cristã e militarizada. Essa é a “Israel imaginária”, não necessariamente uma leitura ampla sobre a realidade do país, é definida pelo historiador Michel Gherman, autor do livro “O não judeu judeu: A tentativa de colonização do judaísmo pelo bolsonarismo”, como um modelo cultural que foi importado por extremas-direita no mundo, inclusive a brasileira, e apropriado pelo bolsonarismo.

Em entrevista à Agência Pública, o pesquisador do Centro de Estudos do Antissemitismo da Universidade Hebraica de Jerusalém e assessor acadêmico do Instituto Brasil-Israel, que esta semana participa da Conferência Internacional “Israel como Código Cultural: Imaginário e usos na extrema-direita”, explica que, para além do uso de Israel como inspiração, há ligações concretas também entre o bolsonarismo e a comunidade judaica brasileira, na formação de uma espécie de comunidade conservadora. Em seus estudos, Gherman cita viagens do ex-presidente Bolsonaro (PL) a Israel e imensos projetos de construção de igrejas evangélicas brasileiras na chamada Terra Santa são alguns dos exemplos simbólicos. Na prática, questões diplomáticas e acordos com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu são bem mais pragmáticos. Na semana passada, o líder israelense exaltou a relação com o Brasil nos últimos quatro anos e afirmou que pretende mantê-la apesar do novo governo. 

O professor, que fala sobre a urgência de desbolsonarizar o Brasil nos moldes da desnazificação da Alemanha no pós-guerra, amplia a visão sobre a extrema-direita no Brasil e suas relações com a religião, sobretudo com os evangélicos. Para ele, o bolsonarismo suscitou um discurso de perseguição da esquerda, que se assemelha com o anti-semitismo. “Se estruturou uma percepção sobre a esquerda que se tinha sobre os judeus. É preciso, nesse sentido, entender o tamanho desse buraco: os judeus foram exterminados por esse tipo de discurso.”   CONTINUAR LENDO