Comissão de Desenvolvimento Agrário reuniu diversos segmentos para debater impacto do avanço do plantio de eucalipto e vai levar documento com conclusões à direção nacional do Ibama e ao Ministério do Meio Ambientes
A expansão das plantações de eucalipto e os impactos da cadeia da celulose na Costa Leste de Mato Grosso do Sul foram debatidos na tarde desta quinta-feira (11) pela Comissão de Desenvolvimento Agrário, Assuntos Indígenas e Quilombolas da Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul. A reunião, que ganhou dimensão de audiência pública, teve a participação de pesquisadores das universidades públicas, representantes do setor produtivo, Ministério Público, vereadores e lideranças de comunidades impactadas na região do Vale da Celulose, que abrange municípios localizados na Costa Leste. A cadeia produtiva da celulose já impacta 53 municípios onde há 190 assentamentos rurais. O plantio de eucalipto ocupa em todo o Estado aproximadamente 2 milhões de hectares, consolidando a região leste como um dos principais polos de produção florestal do país.
As conclusões da reunião serão levadas na próxima segunda-feira pelo deputado Zeca do PT, presidente da Comissão, ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), em Brasília.O objetivo de abrir diálogo com os órgãos federais e avaliar medidas relacionadas aos impactos ambientais da expansão do eucalipto na região. Zeca defendeu que a monocultura do eucalipto seja analisada com mais rigor diante de relatos de secamento de nascentes, baías e cursos d’água, além de preocupações relacionadas ao uso de defensivos nas áreas de plantio.

Apesar das críticas, o parlamentar garantiu que não é contra o desenvolvimento econômico e lembrou que, quando governou o Estado, entre 1999 e 2006, participou da articulação que levou a empresa International Paper a se instalar em Três Lagoas, marco inicial da indústria de celulose na região.Como alternativa para reduzir impactos ambientais, Zeca sugeriu ao representante do setor produtivo, Benedito Ramão, a criação de ilhas de árvores nativas e frutíferas dentro das áreas de eucalipto, que poderiam funcionar como refúgios ecológicos e oferecer alimento para a fauna silvestre.

O promotor Luciano Loubet alertou que o avanço da silvicultura exige atenção do ponto de vista ambiental já que desde 2007, o Governo do Estado dispensou o licenciamento para a expansão do plantio de florestas comerciais , assim como para qualquer exploração agropecuária (seja agricultura ou pecuária). “A consequência deste afrouxamento das regras, faz com que por exemplo, numa área de 20 mil hectares, basta o proprietário conservar os 20% de reserva legal , neste caso 4 mil hectares, que os 16 mil hectares remanescentes estão livres para o plantio, quando na avaliação de Loubet, seria necessário adotar algumas medidas mitigadoras, como a criação de corredores ecológicos, exatamente para garantir sustentabilidade com a preservação da fauna, além de evitar que nascente acabem secando. A consequência da existência de grandes blocos de monocultivo é a fragmentação da vida silvestre, levando a situações onde há o plantio se estende por 15 quilômetros de largura por 20 quilômetros de extensão, dificultando a conexão entre habitats naturais, impedindo a circulação da fauna e a manutenção da biodiversidade.
O subsecretário de Meio Ambiente de Selvíria, Valcitinez Santiago, também apresentou preocupações durante a audiência. Segundo ele, imagens de satélite mostram nascentes comprometidas pelo avanço do eucalipto em áreas próximas a assentamentos rurais. Em uma das apresentações, o gestor exibiu fotografias que indicariam três nascentes impactadas pela atividade, com redução da área úmida e avanço do plantio até áreas sensíveis. “Essas fotos mostram claramente as nascentes que estão sendo comprometidas pela atividade”, afirmou.
O pesquisador da área de climatologia Mario Henrique, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), afirmou que a região do Bolsão enfrenta uma situação preocupante do ponto de vista ambiental. Segundo ele, há sinais de mudanças no regime de chuvas, especialmente em Três Lagoas, onde o volume anual de precipitação passou a registrar menos de 1.100 milímetros em alguns períodos desde 2010. O professor também destacou que, do ponto de vista científico, plantações de eucalipto não podem ser classificadas como florestas, mas sim como monocultivos. Ele alertou ainda para a existência de fragmentos de vegetação nativa confinados entre grandes áreas de eucalipto, que acabam perdendo qualidade ecológica por falta de conexão com outros ecossistemas.
Outra preocupação levantada durante o debate foi o impacto da mudança no uso do solo sobre atividades tradicionais da região. Segundo a professora de Geografia, Marine Dubos, do campus de Três Lagoas da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), a empresa Suzano investiu R$ 1 milhão na implantação de um laticínio como medida compensatória associada à instalação da indústria de celulose. No entanto, de acordo com a docente, a unidade estaria funcionando com apenas cerca de 30% da capacidade, em razão da queda na produção leiteira local. A docente se mostrou convencida de que indústrias do segmento de celulose como a Suzano, tem feito “muito mais marketing”, que propriamente fazendo investimentos em medidas compensatórias que de fato contribuam para melhorar a qualdiade de vida das populações diretamente impactadas pelos empreeendimentos.
O ex-prefeito de Ribas do Rio Pardo, João Alfredo, também manifestou preocupação com a expansão da atividade no município. Segundo ele, cerca de 40% do território local já está ocupado por eucalipto. Em 5 anos, a área plantada saltou de 160 mil para aproximadamente 400 mil hectares, expansão favorecida pelo baixo custo da terra na região onde uma empresa vinculada à Suzano teria adquirido terras por cerca de R$ 6 mil por hectare, em uma área aproximada de 170 mil hectares. Ele também demonstrou preocupação com a situação ambiental do Rio Pardo, onde a Suzano faz a captação de água para uso industrial. Ele ainda criticou a falta de transparência na aplicação da compensação ambiental de R$ 75 milhões que o Governo do Estado teria cobrado da empresa, mas só R$ 10 milhões teriam sido reaplicados no muncípio.
Representando o setor produtivo, Benedito Mário Lázaro afirmou que as empresas seguem critérios técnicos e ambientais e que grande parte das áreas utilizadas para o plantio já estava degradada antes da implantação da atividade. Segundo ele, a silvicultura trouxe investimentos, empregos e melhorias na infraestrutura regional. Lázaro afirmou ainda que as empresas realizam manejo de solo e de recursos hídricos, mantêm estrutura de prevenção e combate a incêndios florestais e realizam a pulverização de defensivos dentro das normas e da legislação vigente. “Queremos paz para trabalhar. A silvicultura transformou a região”, declarou.
Fonte: Agência ALEMS | Por: Flavio Paes Foto: Wagner Guimarães









