Campo Grande-MS
domingo, 5/04/2026

Busca por autocompreensão, adaptação de ambientes corporativos e o fim da “invisibilidade” marcam a jornada de profissionais no espectro autista

Basta observar uma reunião de equipe ou um ambiente de escritório compartilhado para notar as diferentes dinâmicas de interação. Para alguns, o “small talk” e os ruídos de fundo são naturais. Para outros, esses mesmos estímulos podem ser exaustivos. Com o avanço das discussões sobre saúde mental, um fenômeno tem ganhado força: adultos que, após décadas de sensação de inadequação, descobrem que fazem parte do Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Esse diagnóstico tardio não altera quem a pessoa é, mas muda drasticamente como ela entende sua trajetória. No mercado de trabalho, onde a produtividade e a sociabilidade costumam caminhar juntas, a revelação do laudo traz um questionamento central: as empresas estão preparadas para talentos que pensam de forma diferente?

Segundo Larissa de Oliveira e Ferreira, doutora e professora do curso de Psicologia da Estácio, o diagnóstico na fase adulta funciona como uma peça de quebra-cabeça que finalmente se encaixa. “Muitos adultos chegam ao consultório com quadros de burnout ou depressão, sem saber que a causa base é o esforço hercúleo que fazem para ‘parecerem normais’, o que chamamos de masking. O diagnóstico traz alívio, mas também a necessidade de renegociar o espaço no mundo profissional”, explica.

A barreira da comunicação

Embora o acesso à informação tenha crescido, o ambiente corporativo ainda é projetado para perfis neurotípicos. As dificuldades de comunicação não verbal, a interpretação literal de mensagens e a sensibilidade a estímulos sensoriais, como luzes fortes ou excesso de barulho, podem se tornar obstáculos para profissionais brilhantes.

“As conexões no trabalho exigem uma leitura de entrelinhas que o autista pode não ter de forma intuitiva. Muitas vezes, o que se interpreta como desinteresse ou grosseria é apenas uma forma direta de processar a informação. Falta às empresas o que chamamos de letramento em neurodiversidade”, afirma a docente.

Essa dinâmica dialoga com a necessidade de as organizações evoluírem em seus pilares de diversidade e inclusão (ESG). Para Larissa, a inclusão real vai além da contratação; ela passa pela adaptação da cultura organizacional para acolher a singularidade.

Ajustes que geram valor 

Diferente do que muitos gestores pensam, adaptar o trabalho para um profissional com TEA não exige grandes investimentos financeiros, mas sim mudanças de comportamento e processos. “Pequenas alterações, como permitir o uso de fones de ouvido para reduzir o ruído ou garantir que as demandas sejam passadas de forma escrita e objetiva, fazem uma diferença enorme. Quando o ambiente é seguro, o profissional autista entrega um foco e uma capacidade analítica acima da média”, pontua Larissa.

O que fazer?

Para as empresas e profissionais que desejam construir um ambiente mais inclusivo, a recomendação da docente é o diálogo aberto. “Entre as estratégias estão a flexibilização do regime de trabalho (como o home office, que reduz o impacto sensorial) e o treinamento de lideranças para oferecer feedbacks diretos e claros”, explica.

Aprender a valorizar a neurodivergência é, segundo a psicóloga, um dos grandes desafios da gestão de pessoas na atualidade. “Quando a empresa aprende a lidar com o diferente, ela se torna mais humana e eficiente para todos”, finaliza.

Por: Evelise Couto | Foto: Freepik

Relacionada: Abril azul: Mês de Conscientização sobre Autismo