Campo Grande-MS
sábado, 30/08/2025

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A morbidez de um inescrupuloso senador, o bolsonarista Eduardo Girão, é de indignar o “povo do mal”. Representante do “povo do bem”, Girão ofereceu a réplica de um feto de 12 meses ao ministro Sílvio Almeida, dos Direitos Humanos, cuja mulher está grávida.

Educadamente, sem perder a compostura, nem a sensatez, o ministro recusou, lamentando a provocação imbecil e midiática do senador e escudeiro de Jair Bolsonaro. Tudo isso durante audiência publica no Congresso Nacional, diante dos olhos e dos ouvidos de dezenas de parlamentares e das câmeras de TV.

O que Girão queria era por um ministro negro e de esquerda numa situação constrangedora, fulanizando diferenças de opinião sobre aborto e direitos da mulher sobre o próprio corpo. Girão fez a rasteira agressão e não recebeu de volta igual tratamento. Ouviu uma resposta educada, serena e firme daquele a quem julgava ter baleado com a macabra tentativa.

Havia, e há, no conteúdo moral e intelectual do ministro, algo que falta ou que signifique nada para expressivas parcelas das tropas bolsonaristas: bom-senso. Ou respeito. Ou delicadeza. Ou educação. Ou coerência com a postura autoproclamada de “povo do bem”. Todos este sentimentos e comportamentos aqui citados podem ser substituídos por uma palavra mágica: amor.

Girão recebeu o apoio de amigos e compartilhadores, todos em marcha contra a regulação das mídias porque se beneficiaram e ainda se beneficiam das notícias falsas (fake news). Neste grupo estão a ex-deputada Janaína Paschoal, o senador Sérgio Moro e a senadora Damaris Alves. Esta, aliás, compartilhou a iniciativa de Girão, justificando-a como protesto contra à decisão do presidente Lula de retirar o Brasil da Declaração do Consenso de Genebra sobre Saúde da Mulher e Fortalecimento da Mulher, documento de caráter conservador contra o aborto.

Que se proteste contra o aborto. Com veemência. Com o máximo vigor. Porém, que sejam coerentes e escapem à flagrante hipocrisia de defender a vida enquanto a fulanizam e a escracham com torpezas como a do senador Eduardo Girão. É como pregar o amor ao próximo incentivando o povo a fazer justiça com as próprias mãos. É como plantar flores na mesma campina onde matam passarinhos.

O bolsonarismo não é um partido. Não é uma idéia. Não é uma filosofia de pensamento. É um raro e raso modelo de opção comportamental, inspirado em concepções conservadoras, mas nutrido por impulsos processados nas oficinas mentais do ódio, da violência, da intolerância, da hipocrisia.

O pior é que são muitos os tripulantes desta horripilante e abjeta “Nau dos Insensatos”. Tal expressão nada tem a ver com a obra-prima antológica do cineasta Stanley Kramer. Aquela história era apenas um filme. Um bom filme.

Aqui, neste Brasil de fetos esculachados por malabaristas da decrepitude, a nau da insensatez navega no mar de uma sombria realidade. É um enredo real, cujo desfecho, face às ameaças contra a paz, a sensatez e a convivência humana, podem tornar cada vez mais distante um final feliz.

EDSON MORAES

Jornalista e Poeta